UM ENCONTRO DE IMORTAIS


        Havia tempo em que não se ouvia falar de Belchior, mas tinha-se esperança. Esperança
de que um dia ele voltasse a pisar nos palcos, para o regozijo de milhões de fãs. Aqui e
acolá ouvíamos uma notícia dele. Criou-se então uma aura de mistério ao derredor
desse artista tão plural. E quanto mais mistério pairava sobre a sua recusa, seu
isolamento, mais se elevava sobre nós a sua sombra, enorme, projetada pelo farol que
era Belchior. Estivesse onde estivesse, sua luz difundia-se como a das estrelas, cujo
brilho viaja por anos-luzes, cruzando o tempo-espaço, até se fixar nas nossas retinas.
       Assim era a luz de Belchior, espraiando-se pelo Brasil e para além das nossas
fronteiras. Era onipresente; onde quer que ele estivesse, era entre nós que ele se
encontrava: num bar, numa esquina, numa roda de cantoria, num sarau à luz da lua
cheia, nos rádios, nas vitrolas, nos nossos corações selvagens, nas cantigas dos galos
das noites e quintais, nos nossos medos de avião, da hora do almoço, daquela mão
selada, molhada de medo; no medo de abrir a porta que dá pro sertão da nossa
solidão, no medo de tantas cidades, da morte como certeza, medo Fortaleza, medo
Ceará. Belchior também estava no nosso medo premonitório de nunca mais vê-lo
retornar.
        Sucedeu que em 30 de abril de 2017, nossa esperança de retornar a ver A Lenda
cantar nos palcos da vida se esvaiu com a triste notícia da morte de Belchior. Ninguém
mais do que nós, cearenses, pode ter sentido dor maior com essa perda. Ele nos dava a
exata dimensão de pertencimento, atravessara tantas gerações: a minha, a de minha
filha e agora a do meu neto que aos sete anos já chilreava as suas canções. Era nosso,
muito nosso, ilustre sobralense, nosso poeta, cantor, compositor, pintor, nosso artista
mais amado, posso afirmar sem qualquer traço de dúvida. Morrera o nosso Belchior,
ficáramos órfãos.
        Restava partir para a última homenagem, a despedida. E fomos. O velório ocorria no
Centro Cultural Dragão do Mar, enfrentaríamos uma fila enorme. Antes, contudo,
visitamos a exposição de Salvador Dalí que se encontrava na Caixa Cultural de
Fortaleza, bem em frente ao Dragão do Mar. O tema era A Divina Comédia, com
ilustrações de cada círculo dantesco, desde o inferno até o paraíso, realizadas pelo
pintor catalão.
        Não sou dada a interpretações místicas, mas uma licença poética permito-me aqui,
pois foi-me impossível não ser tocada por essa inexplicável coincidência. Sim, porque
sabíamos que um dos projetos do Belchior, interrompido definitivamente pela temida
indesejada das gentes, era uma livre tradução do clássico poema de Dante Alighiere. A
fascinação por esse poema fora também expressada por Salvador Dalí; e naquele
momento da morte e velório do Belchior, os astros ou os deuses, ou um extraordinário
acaso, reuniu esses três imortais nas coordenadas 3° 43' 21" S 38° 31' 15" O.
        Rezei minha oração pagã, para que Virgílio também estivesse presente e,
misericordiosissimamente, junto a Dante e Dalí, fossem guias e faróis nas veredas a
serem trilhadas por Belchior rumo ao sítio que lhe fora reservado no firmamento.
Rezei para que, dali, o nosso rapaz latino americano, tornado estrela, continuasse a
cantar, enquanto, cá, ao toar das suas melodias, seguíssemos nós, chorando pra
cachorro.

Socorro Bulcão
(06/06/2022)




 

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