UM ENCONTRO DE IMORTAIS Havia tempo em que não se ouvia falar de Belchior, mas tinha-se esperança. Esperança de que um dia ele voltasse a pisar nos palcos, para o regozijo de milhões de fãs. Aqui e acolá ouvíamos uma notícia dele. Criou-se então uma aura de mistério ao derredor desse artista tão plural. E quanto mais mistério pairava sobre a sua recusa, seu isolamento, mais se elevava sobre nós a sua sombra, enorme, projetada pelo farol que era Belchior. Estivesse onde estivesse, sua luz difundia-se como a das estrelas, cujo brilho viaja por anos-luzes, cruzando o tempo-espaço, até se fixar nas nossas retinas. Assim era a luz de Belchior, espraiando-se pelo Brasil e para além das nossas fronteiras. Era onipresente; onde quer que ele estivesse, era entre nós que ele se encontrava: num bar, numa esquina, numa roda de cantoria, num sarau à luz da lua cheia, nos rádios, nas vitrolas, nos nossos corações selvagens...