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UM ENCONTRO DE IMORTAIS           Havia tempo em que não se ouvia falar de Belchior, mas tinha-se esperança. Esperança de que um dia ele voltasse a pisar nos palcos, para o regozijo de milhões de fãs. Aqui e acolá ouvíamos uma notícia dele. Criou-se então uma aura de mistério ao derredor desse artista tão plural. E quanto mais mistério pairava sobre a sua recusa, seu isolamento, mais se elevava sobre nós a sua sombra, enorme, projetada pelo farol que era Belchior. Estivesse onde estivesse, sua luz difundia-se como a das estrelas, cujo brilho viaja por anos-luzes, cruzando o tempo-espaço, até se fixar nas nossas retinas.         Assim  era a luz de Belchior, espraiando-se pelo Brasil e para além das nossas fronteiras. Era onipresente; onde quer que ele estivesse, era entre nós que ele se encontrava: num bar, numa esquina, numa roda de cantoria, num sarau à luz da lua cheia, nos rádios, nas vitrolas, nos nossos corações selvagens...

PROFANAÇÃO

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PROFANAÇÃO   Fogem-me as palavras, escorrem dos dicionários, apagam-se, tornam-se indecifráveis ante a fúria da besta que solta vocifera. Não há termos capazes de definir esse aluvião de perversidades. A bandeira do ódio foi hasteada sobre inúmeros mastros e, saída dos guetos da estupidez e do obscurantismo, criou pernas e livremente corre ruas, invade casas, derruba florestas, profana corpos, destrói e mata. A cada dia, novo  horror  desfila na passarela da bestice e se ajunta a outras tantas insanidades depositadas num altar satânico cheirando a enxofre. Peregrino em busca de palavras, se não para definir o indefinível, ao menos para tentar fazer borda a um real que nos escapa e que nos ronda e invade. Ali está um corpo feminino na plenitude da sua concepção e em seu momento mais sagrado, o de dar à luz um ser humano,  um filho. Onde está o marido e pai da criança? Fora impedido de participar desse momento destinado ao sublime, convertido em miséria p...