PROFANAÇÃO
Fogem-me as palavras, escorrem dos dicionários, apagam-se, tornam-se indecifráveis ante a fúria da besta que solta vocifera. Não há termos capazes de definir esse aluvião de perversidades. A bandeira do ódio foi hasteada sobre inúmeros mastros e, saída dos guetos da estupidez e do obscurantismo, criou pernas e livremente corre ruas, invade casas, derruba florestas, profana corpos, destrói e mata.
A cada dia, novo horror desfila na passarela da bestice e se ajunta a outras tantas insanidades depositadas num altar satânico cheirando a enxofre.
Peregrino em busca de palavras, se não para definir o indefinível, ao menos para tentar fazer borda a um real que nos escapa e que nos ronda e invade.
Ali está um corpo feminino na plenitude da sua concepção e em seu momento mais sagrado, o de dar à luz um ser humano, um filho.
Onde está o marido e pai da criança? Fora impedido de participar desse momento destinado ao sublime, convertido em miséria por motivo premeditado: o de profanar, logo após o parto, o território sagrado do corpo materno.
Não era a primeira vez que a besta satisfazia a sua lascívia, lambuzando-se sobre o sacro corpo materno em estado de vulnerabilidade, transgredindo o juramento de Hipócrates, desonrando sua classe.
Violar o corpo de mulheres parturientes é tão perverso que nos causa pavor e afugenta palavras que se recusam a preencher o lugar do vazio.
A cena é de choque e desolação, do tipo que teria levado Édipo em Colono a cegar-se por suas próprias mãos.
Na falta das palavras, deve vir o nosso grito de protesto, aliança e solidariedade a essas mulheres, a dizer-lhes que não estão sós; grito para que parem de nos profanar e nos garantam um lugar de fala livre de retaliações.
Fica a pergunta àqueles que respondem pela classe médica em cujas mãos muitas vezes entregamos confiantes os nossos corpos. Sobre essa ignomínia calar-se-ão os seus pares?
Socorro Bulcão

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